O ser humano é uma besta quadrada (*)

Por Alvaro Augusto

GorilaDa Rússia chegou-nos em fevereiro último mais uma notícia sobre o antigo debate entre religião e ciência. Uma adolescente de 16 anos, de nome Maria Schreiber, abriu uma ação judicial alegando que o livro-texto de biologia usado na escola que freqüenta é ofensivo aos crentes, e que os professores deveriam oferecer uma alternativa à teoria da evolução de Darwin. A corte russa rejeitou a ação, mas a estudante e seu pai afirmaram que iriam recorrer da sentença [1].

Esse é um daqueles casos em que não sabemos se devemos rir ou chorar. O único ponto positivo é que o fato ocorreu na Rússia, não no Brasil, e não iremos nos tornar, ao menos dessa vez, objeto de chacota internacional.

Não tenho certeza que parte da teoria da evolução os crentes entendem como ofensiva, mas imagino que seja aquela que afirma que o homem e os macacos atuais compartilham de um ancestral comum, o qual começou a se diversificar há 40 milhões de anos. Esse fato é geralmente expresso pela frase “o homem descende do macaco”, com a ressalva obrigatória de que se trata de um macaco primitivo, não de um macaco atual. Homens, gorilas, chimpanzés, orangotangos, etc., são, portanto, primos genéticos.

A afirmação de que o homem evoluiu de um ancestral primitivo não me ofende em nada, embora eu não tenha certeza sobre o que os chimpanzés pensam dela. Particularmente, tive a sorte de ser muito jovem da primeira vez em que ouvi meu pai, sempre muito esclarecido, dizer que “o homem veio do macaco”. Tão jovem e ingênuo que me lembro de ter pedido a que ele que me mostrasse uma fotografia da época em que ele era macaco… Aos cinco ou seis anos, eu já era um cético.

Infelizmente, o termo “evolução”, em seu sentido biológico, não significa “melhoramento”, mas apenas “modificação”. Não somos melhores do que chimpanzés, gorilas e orangotangos, mas apenas diferentes deles. Somos mais pelados, mais cabeçudos e temos uma cultura mais refinada, mas não somos melhores do que nossos parentes peludos. Talvez sejamos mais inteligentes, mas apenas no sentido muito humano que atribuímos ao conceito de inteligência. Mas não somos mais éticos, não somos mais divinos, não somos mais santos. Não existe melhor prova disso do que as notícias que nos chegam o tempo todo da África, lar de três das quatro espécies de grandes símios.

O gorila da montanha é provavelmente a subespécie mais conhecida deste magnífico animal. Um gorila macho típico pode pesar 180 kg e atingir até 1,7 m, quando totalmente ereto. A força muscular de um gorila é tão superior à humana que, se você for atacado por um deles, o melhor conselho é fechar os olhos e torcer para que tudo acabe rapidamente. Contudo, a não ser que você se comporte de maneira muito tola, isso dificilmente acontecerá. Os gorilas são pacíficos e vegetarianos e, apesar da força descomunal e dos caninos pronunciados, mesmo os grandes machos dominantes preferem resolver as disputas por meio da intimidação e da demonstração de força, não por meio de lutas mortais [2]. Os únicos inimigos dos gorilas são os homens e os leopardos. Mas dos leopardos eles têm pouco a temer.

Em agosto deste ano, seis meses depois da russa Maria Shreiber ter manifestado sua indignação acerca de seus ancestrais biológicos, nove gorilas da montanha foram covardemente assassinados no Parque Virunga, no Congo. De acordo com a reportagem da revista Veja [3], o massacre teria sido organizado por ordem de madeireiros locais, os quais não conseguiram entrar na reserva para derrubar árvores.

Os mais radicais dentre os defensores dos direitos humanos certamente dirão que as condições de vida dos camponeses africanos não são muito melhores do que as dos gorilas, e que os humanos africanos só conseguem sobreviver à custa da exploração do mercado negro de animais selvagens. Talvez. Todavia, existem mais de 60 milhões de seres humanos no Congo, mas menos de 400 gorilas da montanha. Dentro de 30 anos não haverá mais gorilas andando pelas montanhas, mas os seres humanos continuarão numerosos e famintos.

Talvez seja apenas azar dos gorilas, bem como de tantos outros animais, terem co-evoluído com a espécie mais beligerante que já habitou o planeta. Mas o azar é nosso também. Afinal, talvez alguns se lembrem do massacre em Ruanda, que faz fronteira com o Congo, no qual um milhão de humanos foram mortos em 1994, sem que país algum protestasse. Se não conseguimos evitar nem mesmo o massacre de seres humanos, que esperança haverá para os gorilas da montanha?

Assim, Maria Schreiber não deveria se ofender por descender de símios primitivos ou por ser prima de gorilas e orangotangos e prima-irmã de chimpanzés. Nenhum desses animais, por selvagem que seja, pratica o genocídio.

__________________________________
(*) Frase freqüentemente citada pelo professor Newton da Costa, matemático e lógico brasileiro, reconhecido internacionalmente por suas pesquisas em lógica paraconsistente, área do conhecimento que ele ajudou a criar. Detalhes aqui.

[1] ESTADÃO. Justiça russa se recusa a proibir ensino da evolução. 21 fev 2007. Disponível aqui.

[2] Berggorilla & Regenwald Direkthilfe. Acesso em: 05 set. 2007. Disponível aqui.

[3] Veja. E ainda nos julgamos superiores. 02 set. 2007. Acesso em: 05 set. 2007. Disponível aqui.

Nem 8, nem 80

por Bia Kunze

Eu sou contra qualquer tipo de imposição. Ainda que seja para um *suposto* bem comum. Afinal, nenhuma ideologia que é imposta sem ser discutida pode resultar em bem comum.

Não sou eu quem digo isso. É a História. Por causa de um regime de governo que queria o bem comum, meus avós passaram a juventude esfregando batatas em queijos embolorados, para pegar o cheirinho, pois uma fatia de queijo não dava para alimentar a família toda.

Onde eu quero chegar com isso?

Situação 1.
A Câmara dos Deputados levanta a bola: proclamar o dia 11 de maio feriado nacional, por causa do Frei Galvão, agora santo.
A bancada evangélica chia: não reconhece os santos católicos. Dia 11 de maio não pode ser feriado nacional, afinal, vivemos num estado laico. Onde fica a liberdade de religião de cada um?
Ok, ok. A Câmara propõe uma votação popular. Santifica o dia 11 de maio ou não? A bancada evangélica protesta de volta. Não, não pode haver votação. Não pode santificar e ponto final.
Uai, quem foi que falou em liberdade?

Situação 2.
Preocupados com os índices de mortalidade no país por causa de abortos clandestinos, o governo propõe legalizá-lo.
A CNBB bate o pé. Não pode. É pecado.
O governo rebate. É pecado para quem é católico. Não estamos preocupados com a consciência religiosa de cada um. A questão é de saúde pública. E aborto continuará sendo sempre uma opção, e não uma imposição.
Os católicos não aceitam a justificativa.
O Ministério da Saúde tenta uma solução democrática. Vamos abrir um canal de discussão, fazer uma votação popular?
A CNBB protesta de volta. Não, não e não. Não pode haver votação nem discussão. Não pode legalizar e ponto final.
Então tá. Vamos deixar a mocinha que tentou aborto com agulha de tricô sangrar até morrer. Afinal, é a vontade de Deus e ela é uma pecadora.

Situação 3.
O governo Lula vai privilegiar o sistema Linux e não dará espaço para que softwares como o Windows entrem na competição nos projetos de inclusão digital nas escolas.
Que maravilha, dizem os petistas. Vamos parar de gastar milhões com licenças de software proprietário!
Alguns professores acham esquisito. Afinal, 90% do mercado de trabalho exige conhecimentos em Windows para as colocações de emprego mais básicas. Mas tudo bem, pensam eles, sobrará mais dinheiro para nosso salário e capacitação profissional.
Se o problema é dinheiro, diz a Microsoft, ofereceremos Windows de graça.
Não, não, diz o assessor da Presidência, José de Aquino. Essa possibilidade não existe. Só usaremos software livre.
Ok, então. Vamos deixar nossos jovens desempregados. O guri que recém-acabou o 2º grau não conseguirá aquela vaga de recepcionista num laboratório de análises clínicas porque não tem a qualificação básica “Windows-Word-Excel” exigida no currículo. E que 90% do mercado usa.
Ah, quer saber? Azar do laboratório, que é do mal, pois usa software proprietário. Os jovens serão livres, é o que importa! Livres inclusive para ficarem desempregados.

Duvidam? Leiam aqui.

Gente, estamos falando de educação. Inclusão digital. Eu sou radicalmente a favor que repartições públicas e entidades governamentais usem software livre, afinal, trata-se de milhões economizados dos NOSSOS bolsos em licenças.

Mas na educação não. A escola tem que preparar a meninada para tudo. Vamos ensinar Linux, Ubuntu, Windows, vamos ensinar tudo aos jovens, principalmente a serem formadores de opinião e escolherem o que querem. É errado impor só Windows, tão errado quanto impor só Linux. Imposição não funciona. Conhecendo os dois sistemas, os jovens poderão até mudar a mentalidade dos mais velhos, mostrando as vantagens do software livre em contraposição ao software proprietário. Ah, sim, mesmo que eles queiram ser advogados no futuro, sinto muito, terão que aprender matemática também.

Podem falar que Linux é a única salvação contra os altos índices de pirataria que grassam no país. Mas a meu ver, até pirataria é opção. Assim como furar sinal vermelho, bater carteira na rua, jogar água na bomba de gasolina, ou qualquer outra contravenção. Pelo menos a pirataria deixaria de ser desculpa para a falta de conhecimento.

E quem acha que, ao expor as situações 1, 2 e 3, eu exagerei ao comparar sistema operacional com religião, está muito enganado.

Foi para o espaço

editorial de “O Estado de SP – 31/07/2007″

Os pesquisadores que perderam seus experimentos fazem estarrecedores relatos, que precisam ser apurados pelas autoridades responsáveis

Nenhum programa espacial é uma história ininterrupta de sucessos.

Os soviéticos, que saíram à frente na conquista espacial, colecionaram fracassos atrás de fracassos, como se ficou sabendo quando caiu o véu de segredo que cobria essas atividades.

Foguetes explodiam na decolagem ou durante o vôo – e experiências científicas perderam-se nesses lançamentos frustrados.

Com os EUA, a única diferença foi que os fracassos eram filmados e transmitidos para o grande público.

Nesses dois programas – os mais avançados jamais feitos pelo homem – pessoas perderam a vida, ou nas explosões em solo, ou nas cápsulas e veículos tripulados que explodiram ou não puderam ser recuperados em ordem.

Aprendeu-se tanto com o sucesso como com o fracasso.

E se hoje os lançamentos e viagens espaciais são uma rotina que quase não provocam mais espanto e curiosidade, é porque os países que se dedicaram à conquista do espaço – e não foram apenas os EUA e a antiga URSS – usaram seus melhores recursos humanos e financeiros para desenvolver tecnologias que acabaram tendo emprego na nossa vida cotidiana.

Encararam o desafio com seriedade e perseveraram nesse empreendimento.

O Programa Espacial Brasileiro, iniciado na distante década de 1970, foi e está sendo administrado da maneira exatamente oposta à empregada por países, como Índia e China, que adotaram programas idênticos muito depois e estão muito à frente do Brasil.

Há mais de uma década, o programa brasileiro tem vida praticamente vegetativa, sustentada por recursos orçamentários escassos que desestimulam a permanência de cientistas e técnicos e não são um incentivo à formação de outros.

A última das três malogradas tentativas de lançamento do Veículo Lançador de Satélites (VLS) foi feita há três anos e não se tem idéia de quando e se o programa será retomado.

Não há método nem propósito definido numa atividade que deveria ser prioritária para o governo, na área científica e tecnológica.

Não surpreendem, portanto, as revelações contidas na reportagem de Eduardo Nunomura, publicada sábado em “O Estado de SP”, sobre os bastidores do lançamento do foguete de pesquisas VSB-30, no Centro de Lançamentos de Alcântara.

O foguete foi lançado com sucesso – após adiamentos determinados pelas condições meteorológicas -, mas a sua carga útil, contendo experimentos científicos, não foi recuperada.

Esse fato, em si, não seria extraordinário.

Em condições normais, um sem-número de fatores pode fazer com que helicópteros, aviões e embarcações encarregadas da recuperação da carga não consigam cumprir sua missão.

Mas a não recuperação da carga, no caso do VSB-30, teria sido o corolário das condições que precederam o lançamento do foguete, relatadas na reportagem.

Os pesquisadores que perderam seus experimentos fazem estarrecedores relatos, que precisam ser apurados pelas autoridades responsáveis.

Por exemplo, havendo uma ‘janela’ de apenas cinco dias para o lançamento, a Base de Alcântara foi fechada no domingo, para descanso.

O coordenador de resgate da carga útil teria entrado em choque com o coordenador-geral da operação, por discordar de uma eventual alteração da rota do veículo.

Embora negue o atrito, o fato é que o coordenador do resgate voltou para São José dos Campos, SP, antes do lançamento.

Sua explicação: “Sou vice-diretor de Administração do Instituto de Atividades Espaciais, estava chegando o final do mês e tenho de pagar as contas, precisei voltar.” O foguete subiu no dia 19.

Além disso, às 5h da manhã desse dia os pesquisadores ficaram sabendo por intermédio de um motorista que os servia que o foguete seria lançado naquele dia.

E o motorista tinha bons motivos para saber o que aconteceria: “Os salgadinhos (para o coquetel comemorativo) foram entregues hoje.”

E, se não bastasse, houve divergências entre militares e pesquisadores sobre a abertura do pára-quedas da ogiva com a carga útil.

Reclamam os pesquisadores que foram feitas apenas cinco tentativas de busca, quando na missão anterior, em 2002, a operação de resgate durou duas semanas.

A serem procedentes as reclamações e denúncias dos pesquisadores, a bagunça que é a marca do governo Lula chegou ao espaço.

Página 1 de 212