Arquivo

Arquivo da Categoria ‘Crenças’

Censura de jogos e democracia, por Túlio Vianna: Pornografia é cultura

8 de dezembro de 2009 3 comentários

Um ponto de maestria do sr. Túlio Vianna, praticamente um ensaio, na íntegra:

Uma matéria do jornal El País de hoje chamou-me a atenção para uma interessante discussão que está em curso no Congresso brasileiro: pornografia é cultura? A resposta a esta questão é fundamental para se definir se os beneficiários do vale-cultura poderão ou não utilizá-lo para assitirem a espetáculos ou adquirirem material de cunho pornográfico.

Claro que pornografia é cultura! Por que não seria?

Um texto literário deixaria de ser cultura por tratar de temas sexuais? Uma pintura ou escultura deixaria de ser cultura por retratar uma relação sexual? Uma música deixaria de ser cultura por falar de sexo?

Pornografia não é um meio de expressão de idéias, mas apenas mais um dos temas a serem expressados. Debater se pornografia é cultura é tão tolo quanto debater se vampirismo é cultura ou se ficção científica é cultura ou se funk é cultura. Trata-se de um debate sobre o conteúdo da cultura e não sobre sua forma de expressão.

Não cabe ao legislador, escolher os temas a serem abordados em manifestações culturais, pois ao fazê-lo estaria realizando uma valoração moral personalista de qual cultura é boa e qual cultura é ruim.

Discussão muito semelhante a esta, também em curso no congresso brasileiro, trata da proibição de determinados jogos eletrônicos que, nas palavras do legislador, são “ofensivos aos  costumes, às tradições dos povos, aos seus cultos,  credos, religiões e símbolos”.

Ofensas aos costumes ou a religião é sempre a ofensa aos costumes e à religião de alguém. No caso, obviamente, aos do legislador. Em um Estado Democrático de Direito, cujo valor essencial é a pluralidade, estas ofensas não podem ser simplesmente censuradas, pois o direito da minoria de se expressar livremente deve  ser sempre garantido.

O simples fato destas questões terem sido postas no parlamento brasileiro já demonstra como o nosso poder legislativo desconhece completamente um princípio básico do Direito: a rigorosa separação entre moral, religião e Direito.

Em um Estado Democrático de Direito, laico e amoral na sua essência, o legislador deve respeitar a pluralidade de concepções morais existentes, garantindo o direito de pudicos e libertinos, de religiosos e de ateus, independentemente de suas concepções pessoais.

Democracia não se confunde com ditadura da maioria.

Na ditadura da maioria, a maioria pode impor valores religiosos e morais à minoria. Cristãos pudicos poderiam, por exemplo, proibir jogos que satirizassem Cristo ou trouxessem cenas que atentassem contra a virtude da castidade. Na democracia, no entanto, os direitos das minorias são resguardados, desde que não lesem direitos fundamentais da maioria. O simples fato de assistir a um filme pornográfico ou jogar um videogame no qual Cristo seja satirizado não lesa nenhum direito fundamental da maioria cristã e/ou pudica.

Qualquer restrição a este tipo de produção cultural afasta-se do ideal democrático e aproxima-se de uma inadmissível ditadura da maioria. Não cabe ao legislador decidir que tipo de jogo eletrônico é bom ou ruim e muito menos se a cultura pornográfica deve ou não ser usufruída pelos brasileiros.

No Estado Democrático de Direito somos livres para fazer nossas escolhas culturais, sem que estas estejam submetidas à avaliação moral e religiosa de um legislador paternalista que seleciona previamente a “boa cultura” a qual devemos ter acesso.

Se o legislador brasileiro considera o enredo de algum jogo eletrônico imoral e pecaminoso, basta não jogá-lo e não permitir que seus filhos o joguem. Se o legislador brasileiro considera que a pornografia não deve ser acessada por “cidadãos-de-bens” (o trocadilho é proposital), pois há uma ala no inferno reservada aos libertinos, basta afastar-se dela. O que não pode é o legislador, em hipótese alguma, impor seus critérios morais e religiosos aos cidadãos de um Estado Democrático de Direito.

Se se vai criar um vale-cultura, que seja ele um vale-qualquer-cultura e não um vale-cultura-que-o-legislador-escolheu-pra-você.

Blog do Túlio Vianna

A verdadeira causa do desastre do vôo 447

5 de junho de 2009 4 comentários

Imagino então, no ponto de vista do vigarista (ou numerólogo), que nunca antes um Air Bus fez um vôo de número 447…

De São Paulo – Marcelo Carneiro

Estimados milhares de leituras dessa coluna, aqui venho para em alto e bom declarar a todos que foi revelada a causa da tragédia com o vôo 447 da Air France. 15. Isso mesmo. Um simples e falsamente inocente número. 15.

Quem nos dá o privilégio dessa informação é o numerólogo Chris Allmeida, que circulou uma nota na imprensa nessa terça-feira, intitulada o Vôo 447 pela ótica da Numerologia.

Em síntese, vejam aqui o que diz o nosso bravo numerólogo:

Vôo 447 = 4 + 4 + 7 = 15
Na numerologia, 15 é o número do Diabo. Este número carrega consigo uma carga muito forte de energias negativas, agressividade, medo, desvio de caminhos, etc.

Indo além, ele adiciona mais bruxaria ao que já ia tão mal:

Na numerologia caldéia e cabalística, temos:
A=1, I=1, R=2 = 1 + 1 + 2 =4
B=2, U=6, s=3 = 2 + 6 + 3 = 11
AIR + BUS = 4 + 11 = também temos o 15

Como, como, COMO as autoridades aeronáuticas não se deram conta disso? O simples fato de o vôo 447, voado com um Airbus, fazer isso diariamente, saindo do Rio e chegando a Paris com razoável pontualidade e integridade física ao longo de anos fez com que todos, lamentavelmente, relaxassem, deixando de atentar para a incrível coincidências de números 15 por todos as lados.

Quanta incompetência, meu Deus! Como ainda não temos um Ministério da Numerologia para analisar TODOS os eventos cotidianos de todos nós, para prever desastres, impedir maldades, justificar a nossa ausência em reuniões de trabalho! “Sinto muito, caro cliente, mas encontro justamente às 15 horas, nem pensar!!!”

COMO ninguém se deu conta dessa fatalidade? Como é que ainda temos as 15 horas, todas as tardes? Por que ninguém removeu o dia 15 de cada mês, garantia de perigo e insegurança para todos nós, pobres mortais que seguimos a vida na ignorância de tudo que nos diz a sagrada ciência da Numerologia? Obrigado, Cchrriss Allmmeidda. Você ajudou a salvar milhares de vidas. Pena que seu aviso tenha chegado tarde, especialmente para os pobres passageiros do vôo 447.

Aliás, por que mesmo você não avisou todos antes de embarcar? Aliás, por que não avisou a Air France para cancelar esse vôo desde sempre? Você não é O cara? Numerologia não é A ciência? Ou será que era melhor aguardar o desastre e a terrível perda de vidas, para então o mundo finalmente escutar a sua mensagem?

Pois eu tenho uma mensagem para você.

A sua mensagem é uma fraude. Numerologia é uma fraude. Você, nem sei qual era o seu nome original, portanto, prefiro não afirmar nada a seu respeito, a não ser que você fez uma coisa muito feia, de péssimo mau gosto, de lamentável insensibilidade. Ao se proclamar numerólogo, para mim, você era apenas um tolo. Ao emitir essa nota logo após ao acidente, você se mostrou um péssimo e insensível ser humano, aproveitando esse momento tão impossivelmente trágico para promover o seu consultório de nenhuma-ajuda. E acho que eu não fui o único a achar isso. Você sabia que sua assessoria de imprensa se desculpou pela sua nota, ontem mesmo?

Eu, aqui na minha luxuosa laje em Pinheiros, nesse verdadeiro templo dedicado à Razão, balanço a cabeça desanimado com essa triste obsessão humana, com essa insistência em atribuir à magia tudo que não está exatamente no manual do nosso cotidiano. Numerologia, astrologia, homeopatia, cristalografia, neurolinguistica, cabala, esqueci alguma dessas besteiras?

Você, que me lê, acredita em alguma dessas formas de metafísica para parvos, como disse o Lima Barreto, muito, muito antes de mim? Você acredita em Atlântida, em florais de Bach, na energia misteriosa das pirâmides? Você curte uma boa macumba, vai ao pai de santo, consulta a astróloga que sua amiga disse que é o máximo e lhe disse que sua vida vai enfrentar alguns desatinos e que uma viagem, uma doença na família e um garboso príncipe a aguardam, desde que você saiba evitar o maldito 15 e suas muitas subdivisões?

Você também opta por viver a vida de mágica em mágica, de credulidade em credulidade, pulando de uma a outra enquanto sua vida segue e alguém sério inventa uma nova vacina para algo que mataria você se você insistisse com o homeopata de plantão?

Eu gostaria que todos aproveitassem para fazer o contrário que o tal Chris propõe. Eu gostaria que todos lessem, ou espiassem ao menos, livros como “O mundo assolado pelos demônios”, do Carl Sagan, que pede aos homens e mulheres que parem de seguir essas tolices e se voltem para a beleza da ciência. Que todos leiam o lindo “Uma breve história de quase tudo”, do Bill Brysson, que nos chama para nos encantarmos com a mágica do que realmente existe e nos cerca, em vez de perdermos tempo com bobagens repetidas ao longo de milênios, e que não nos ajudaram a avançar um milímetro.

Vocês precisam pensar que, há apenas 100 anos, pouco mais, uma mulher em três morria no parto. Que a vida média era 37 anos, na Europa. Que quase todo mundo morria de choque, uma simples apendicite era mortal. Tuberculose também era. Lembram da varíola, poliomielite? Se morria de tudo, rezando pra qualquer coisa, numerando e astrologando ou não, nada fazia a menor diferença.

Isso somente mudou quando começamos a pensar pra valer e paramos de atribuir tudo os deuses ou aos duendes. Criamos remédios que funcionam independentemente do que eu pense sobre eles, criamos vacinas, inventamos a anestesia. Nada disso foi invenção de tarólogo, posso assegurar a vocês. Inventamos a vida moderna e nela vivemos, mas infelizmente a bruxaria veio junto. Precisamos nos livrar dela, pensando no que realmente acontece.

E o que realmente derrubou o vôo 477 foi o fato de que ele era um avião, que aviões infelizmente caem, sempre irão cair, uns poucos, enquanto a vasta maioria, numa celebração da inteligência humana, chegam aos seus destinos, depois de terem decolado, subido até 10 km de altura e -50 graus, viajado a mais de 800 km por hora, deixando-nos sãos e salvos, apenas mal-alimentados, para podermos trabalhar, conhecer lugares que jamais conheceríamos, encontrar pessoas amadas, viver a vida em sua plenitude.

Isso, contém riscos que numerologia nenhuma explica ou evita, porque, como qualquer tolice, ela fica infinitamente aquém da vida.

Raios caem sobre a gente, automóveis infelizmente colidem com caminhões, navios afundam, e todas as criações contém erros ou riscos, e assim é a vida, complexa demais para ser descrita ou controlada. Vivemos graças a essas maravilhosas coisas que criamos, e devemos aceitar a idéia de que, vez por vez, algo saia errado, ao mesmo tempo em que lutamos e usamos nossa inteligência para que cada vez menos coisas saiam errado.

Vamos chorar os passageiros do vôo que terminou tão tristemente, vamos aprender e melhorar os aviões, mais do que simplesmente duplicar as consoantes nos nomes deles.

Vamos, porque ir é a nossa natureza. Vamos em frente, mostrar do que somos capazes. Vamos, porque sim.

Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem “O Branco”, premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos “Simples” e o romance “O Nosso Juiz”, pela editora Record. Acaba de escrever o romance “Depois do Sexo”, que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances “Insônia” e “Antes que o Mundo Acabe”.

O homem que prevê o passado

2 de junho de 2009 1 comentário

Jucelino… e continua!

Eu digo CONTINUA, pois ele faz questão de errar o que já aconteceu.

Mesmo após o programa Fantástico apontar todas as evidências de fraudes deste indivíduo desocupado, ele continua insistindo, e outros ignorantes acreditando, nas alegações fúteis, ridículas e infundadas de Jucelino Nóbrega da Luz.

Não estamos falando de um ser com síndrome de dawn ou qualquer forma de retardo mental, estamos falando de um homem IDIOTA.

Foi a mesma ladainha no acidente aéreo da TAM, da Gol, e agora da Air France, e no dia seguinte, “plim!”, aparece cartas manuscritas com carimbos falsos ou páginas adulteradas de supostas cartas dele enviada as devidas companhias e órgãos regulamentadores. Não obstante, as cartas dele aparecem exatamente conforme as notas oficiais das empresas, e o pior, se a empresa erra o número de passageiros, ele erra também! Magnífico, não? A diferença é que a empresa republica no dia seguinte uma nota informando o número correto de passageiros, outros detalhes técnicos, etc, e o Jucelino, bom, ele não pode falar que escreveu uma errata 2 anos antes e autenticou em cartório.

Outro fato engraçado é que essas previsões nunca aparecem nas suas previsões anuais! Ao menos não até agora, nada impede que ele as refaça. Em nenhum momento, ele declarou previamente um evento, não foi nas torres gêmeas, não foi na queda dos aviões, não foi sobre a guipe suína… aliás, cadê essa gripe? É SÓ UMA GRIPE! Onde 99,9% das pessoas NÃO MORREM por estar doentes, esta “epidemia” não passa de uma gripe, pois é o que ela faz!

No blog CeticismoABERTO tem uma publicação interessante que explora mais este “probleminha” do pobre Jucelino sobre errar o passado… desculpe “professor” (ele se diz um!), mas vai ser burro assim puta que o pariu.

Atualização: Lendo novamente umas previsões neutras e sem sentido do dumb asshole, eu li algo sobre a Tchecoslováquia com problemas… peraaa!!!!!!!!!! A Tchecoslováquia não existe desde 1993!!! Que espécie de idiota falaria em 2008~2009 sobre o que vai acontecer com um país que não existe a quase 2 décadas atrás? Não pode-se nem inventar a desculpa de que ele se referia ao “novo país”, ou “ao norte e ao sul do país” (desculpa se fosse o caso da Alemanha, Irlanda ou Coréia), pois ele foi dividido em 2 novos países! Tenho nojo de algumas pessoas… aliás, um número considerável delas, e um sentimento de repulsão acima do normal para o dumb acima.

Vale a pena ler: Jucelino, o vidente do dia seguinte

Pelo direito de não acreditar em Deus

6 de março de 2009 21 comentários

publicado no Jornal da Tarde.

O professor de Biologia Silvestre Viana, de 26 anos, sempre se sentiu diferente. Tentava seguir os costumes. Mas algo não se encaixava. Quando descobriu o que era, relutou até assumir sua condição. Era ateu. Perdeu o emprego, amigos. Até brigou com a família. “Por não acreditar em Deus, pararam de confiar em mim.”

Viana é parte de uma minoria que sofria sozinho o preconceito. Sofria. Em dezembro, foi criada a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) para dar suporte aos que não creem em Deus, divulgar valores seculares, garantir o Estado laico e incentivar os descrentes a “sair do armário”.

“Eles precisam de alguém que apoie, dê a cara, lute contra o preconceito”, diz Daniel Sottomaior, presidente da Atea. Tarefa árdua: os ateus são o grupo mais rejeitado pelos brasileiros (veja abaixo). Mesmo assim, a associação, criada a partir de fóruns na internet, tem 371 sócios e arrecadou R$ 7.000, marcando a chegada do “novo ateísmo” ao país.

O movimento contesta as crenças religiosas e prega ativamente a ciência como única explicação para tudo. Surgiu como reação ao recrudescimento do fundamentalismo religioso, intensificado após os atentados de 11 de setembro de 2001, nos EUA. Para a historiadora da Unicamp Eliane Moura, os religiosos passaram a incomodar ao contestar a laicidade do Estado e o avanço da ciência:

“O que não era contestado passou a ser questionado e conquistas importantes, como o domínio das células-tronco, foram barradas.”

Na ação mais polêmica até agora, ônibus de Londres e Barcelona circularam com frases como “Provavelmente, Deus não existe”. A campanha publicitária, intensamente criticada por religiosos, foi proibida na Itália. No Brasil, a Atea teve dificuldade em sua primeira tentativa, pois uma norma do Metrô de São Paulo veta propagandas “de cunho religioso”.

O grupo passou para os ônibus, mas o pedido foi recusado por uma empresa que quis “evitar polêmicas”. Resistência compreensível num país onde 93% da população diz ter religião, segundo o IBGE. Mesmo entre os 7% restantes, há muitos acreditam em Deus.

Além de incluir os ateus no censo – para saber quantos existem no país - a Atea quer instituir o Dia do Orgulho Ateu. A preferência é por 12 de fevereiro, quando nasceu Charles Darwin, cientista que consideram quase um deus. 

Este ano comemoram-se os 200 anos do nascimento do britânico que contestou a teoria criacionista (Deus criou o mundo e tudo que nele vive) com a evolucionista – o homem é resultado de milhões de anos de seleção de espécies.

“Todos têm direito de se organizar, mas acho paradoxal eles trabalharem da maneira que condenam nos outros”, diz Cleverson de Almeida, diretor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que ensina criacionismo e evolucionismo nas aulas. “Essa campanha me parece anacrônica, porque hoje se tem liberdade total”, diz o padre José Oscar Beozzo, teólogo e historiador. “Mas o mesmo direito que temos de professar a fé eles têm de não professar.” Amém.

Rejeitados

O grupo social mais intolerado do Brasil é o ateu. A conclusão é de uma pesquisa feita em 2008 pelas fundações Perseu Abramo e Rosa Luxemburgo para medir o preconceito contra gays.

Perguntados sobre o que sentiam quando encontravam um ateu, 17% dos 2.014 entrevistados disseram repulsa ou ódio e 25%, antipatia.

É o maior índice de aversão dos 28 grupos étnicos e sociais arrolados, empate técnico com usuários de drogas. Os garotos de programa e transexuais vêm em 2º.

“Fui despedido por ser ateu” - Silvestre Viana, 26 anos, professor de biologia e ateu.

Como você se tornou ateu?

Silvestre Viana: Fui criado como católico, mas sempre questionei a Igreja. Fui para outras religiões. Espírita, evangélica, até que comecei a estudar biologia. Não consegui conciliar e escolhi a ciência. Tinha 19 anos.

Como foi?

SV: Não tinha como assumir imediatamente. As pessoas te olham de jeito diferente. Você sente medo da rejeição da família. Aqui na Bahia, para se expressar como ateu, tem que ter raça, é lenha. Em São Paulo, tem uma galera de mente mais aberta. Por isso fiquei no armário. Preferi amadurecer a ideia.

E quando contou?

SV: Há cinco anos para os amigos e para minha mulher. E há quatro pros meus pais. Discuti muito. Meus amigos Testemunhas de Jeová não falam mais comigo. Nas reuniões de família eram 20 pessoas dizendo que eu estava errado. 

E no trabalho?

SV: Eu estava num debate na escola que dava aula, no ensino médio, no interior da Bahia. Defendia o evolucionismo e um seminarista, o criacionismo. Eu assumi. O debate acabou e o ano letivo terminou. A diretora me mandou embora. Falou: “onde meus alunos vão chegar com um professor ateu?”

Exortação aos Ateus

6 de março de 2009 Sem comentários

por Ademir Borsanelli, aqui:

Já que os Cristãos, Teístas e Adjacentes não se cansam de escrever textos exortando as maravilhas de suas vidas impregnadas de fé, vou também fazer a minha parte:

Feliz aquele que vive sua vida honestamente, pelo simples fato de saber que essa é a forma correta , sem a exigência de recompensas ou medo de castigos eternos.

Feliz aquele que tem a certeza de que após sua morte, restarão apenas seus atos, que, por mais insignificantes que possam parecer, decidirão o futuro de muitos.

Feliz aquele que acredita na ciência como o caminho possível de adquirir conhecimentos que ajudarão a desvendar mistérios naturais e facilitar a vida do próximo.

Feliz aquele que não teme a escuridão e a vê como apenas falta de luz e não como um esconderijo de fantasmas.

Feliz aquele que adquiriu a maioridade intelectual e não precisa se apoiar num pai eternamente castrador e punitivo.

Feliz aquele que sabe que o maior tesouro da humanidade é a liberdade de escolher o rumo de seus pensamentos e imaginação.

Feliz aquele que tem a humildade de se colocar ao lado de todos os outros animais que convivem no mesmo planeta.

Feliz aquele que conseguiu se libertar dos fantasmas que povoaram as mentes dos nossos antepassados , mas não os condena por isso…

Feliz aquele que reconhece que seu corpo pertence apenas ao Universo, berço de toda manifestação física e estará para sempre contido nele.

Feliz aquele que desistiu de perseguir e condenar o próximo porque o mesmo não se coaduna com suas fantasias.

Feliz aquele que não é obrigado por convenções a fingir que vê o que não existe.

Feliz aquele que presta justa homenagem a todos os ancestrais, reconhecendo as incertezas e dificuldades que nos trouxeram até este ponto de evolução.

Feliz aquele que encontrou a paz da simplicidade das coisas simples.

Seja feliz, ateu! Não há nenhum inferno te esperando e a inexistência da consciência individual é justamente o paraíso que tanto os teístas procuram.

Nós estamos um passo além deles.