Um ponto de maestria do sr. Túlio Vianna, praticamente um ensaio, na íntegra:
Uma matéria do jornal El País de hoje chamou-me a atenção para uma interessante discussão que está em curso no Congresso brasileiro: pornografia é cultura? A resposta a esta questão é fundamental para se definir se os beneficiários do vale-cultura poderão ou não utilizá-lo para assitirem a espetáculos ou adquirirem material de cunho pornográfico.
Claro que pornografia é cultura! Por que não seria?
Um texto literário deixaria de ser cultura por tratar de temas sexuais? Uma pintura ou escultura deixaria de ser cultura por retratar uma relação sexual? Uma música deixaria de ser cultura por falar de sexo?
Pornografia não é um meio de expressão de idéias, mas apenas mais um dos temas a serem expressados. Debater se pornografia é cultura é tão tolo quanto debater se vampirismo é cultura ou se ficção científica é cultura ou se funk é cultura. Trata-se de um debate sobre o conteúdo da cultura e não sobre sua forma de expressão.
Não cabe ao legislador, escolher os temas a serem abordados em manifestações culturais, pois ao fazê-lo estaria realizando uma valoração moral personalista de qual cultura é boa e qual cultura é ruim.
Discussão muito semelhante a esta, também em curso no congresso brasileiro, trata da proibição de determinados jogos eletrônicos que, nas palavras do legislador, são “ofensivos aos costumes, às tradições dos povos, aos seus cultos, credos, religiões e símbolos”.
Ofensas aos costumes ou a religião é sempre a ofensa aos costumes e à religião de alguém. No caso, obviamente, aos do legislador. Em um Estado Democrático de Direito, cujo valor essencial é a pluralidade, estas ofensas não podem ser simplesmente censuradas, pois o direito da minoria de se expressar livremente deve ser sempre garantido.
O simples fato destas questões terem sido postas no parlamento brasileiro já demonstra como o nosso poder legislativo desconhece completamente um princípio básico do Direito: a rigorosa separação entre moral, religião e Direito.
Em um Estado Democrático de Direito, laico e amoral na sua essência, o legislador deve respeitar a pluralidade de concepções morais existentes, garantindo o direito de pudicos e libertinos, de religiosos e de ateus, independentemente de suas concepções pessoais.
Democracia não se confunde com ditadura da maioria.
Na ditadura da maioria, a maioria pode impor valores religiosos e morais à minoria. Cristãos pudicos poderiam, por exemplo, proibir jogos que satirizassem Cristo ou trouxessem cenas que atentassem contra a virtude da castidade. Na democracia, no entanto, os direitos das minorias são resguardados, desde que não lesem direitos fundamentais da maioria. O simples fato de assistir a um filme pornográfico ou jogar um videogame no qual Cristo seja satirizado não lesa nenhum direito fundamental da maioria cristã e/ou pudica.
Qualquer restrição a este tipo de produção cultural afasta-se do ideal democrático e aproxima-se de uma inadmissível ditadura da maioria. Não cabe ao legislador decidir que tipo de jogo eletrônico é bom ou ruim e muito menos se a cultura pornográfica deve ou não ser usufruída pelos brasileiros.
No Estado Democrático de Direito somos livres para fazer nossas escolhas culturais, sem que estas estejam submetidas à avaliação moral e religiosa de um legislador paternalista que seleciona previamente a “boa cultura” a qual devemos ter acesso.
Se o legislador brasileiro considera o enredo de algum jogo eletrônico imoral e pecaminoso, basta não jogá-lo e não permitir que seus filhos o joguem. Se o legislador brasileiro considera que a pornografia não deve ser acessada por “cidadãos-de-bens” (o trocadilho é proposital), pois há uma ala no inferno reservada aos libertinos, basta afastar-se dela. O que não pode é o legislador, em hipótese alguma, impor seus critérios morais e religiosos aos cidadãos de um Estado Democrático de Direito.
Se se vai criar um vale-cultura, que seja ele um vale-qualquer-cultura e não um vale-cultura-que-o-legislador-escolheu-pra-você.
Imagino então, no ponto de vista do vigarista (ou numerólogo), que nunca antes um Air Bus fez um vôo de número 447…
De São Paulo – Marcelo Carneiro
Estimados milhares de leituras dessa coluna, aqui venho para em alto e bom declarar a todos que foi revelada a causa da tragédia com o vôo 447 da Air France. 15. Isso mesmo. Um simples e falsamente inocente número. 15.
Quem nos dá o privilégio dessa informação é o numerólogo Chris Allmeida, que circulou uma nota na imprensa nessa terça-feira, intitulada o Vôo 447 pela ótica da Numerologia.
Em síntese, vejam aqui o que diz o nosso bravo numerólogo:
Vôo 447 = 4 + 4 + 7 = 15
Na numerologia, 15 é o número do Diabo. Este número carrega consigo uma carga muito forte de energias negativas, agressividade, medo, desvio de caminhos, etc.Indo além, ele adiciona mais bruxaria ao que já ia tão mal:
Na numerologia caldéia e cabalística, temos:
A=1, I=1, R=2 = 1 + 1 + 2 =4
B=2, U=6, s=3 = 2 + 6 + 3 = 11
AIR + BUS = 4 + 11 = também temos o 15Como, como, COMO as autoridades aeronáuticas não se deram conta disso? O simples fato de o vôo 447, voado com um Airbus, fazer isso diariamente, saindo do Rio e chegando a Paris com razoável pontualidade e integridade física ao longo de anos fez com que todos, lamentavelmente, relaxassem, deixando de atentar para a incrível coincidências de números 15 por todos as lados.
Quanta incompetência, meu Deus! Como ainda não temos um Ministério da Numerologia para analisar TODOS os eventos cotidianos de todos nós, para prever desastres, impedir maldades, justificar a nossa ausência em reuniões de trabalho! “Sinto muito, caro cliente, mas encontro justamente às 15 horas, nem pensar!!!”
COMO ninguém se deu conta dessa fatalidade? Como é que ainda temos as 15 horas, todas as tardes? Por que ninguém removeu o dia 15 de cada mês, garantia de perigo e insegurança para todos nós, pobres mortais que seguimos a vida na ignorância de tudo que nos diz a sagrada ciência da Numerologia? Obrigado, Cchrriss Allmmeidda. Você ajudou a salvar milhares de vidas. Pena que seu aviso tenha chegado tarde, especialmente para os pobres passageiros do vôo 447.
Aliás, por que mesmo você não avisou todos antes de embarcar? Aliás, por que não avisou a Air France para cancelar esse vôo desde sempre? Você não é O cara? Numerologia não é A ciência? Ou será que era melhor aguardar o desastre e a terrível perda de vidas, para então o mundo finalmente escutar a sua mensagem?
Pois eu tenho uma mensagem para você.
A sua mensagem é uma fraude. Numerologia é uma fraude. Você, nem sei qual era o seu nome original, portanto, prefiro não afirmar nada a seu respeito, a não ser que você fez uma coisa muito feia, de péssimo mau gosto, de lamentável insensibilidade. Ao se proclamar numerólogo, para mim, você era apenas um tolo. Ao emitir essa nota logo após ao acidente, você se mostrou um péssimo e insensível ser humano, aproveitando esse momento tão impossivelmente trágico para promover o seu consultório de nenhuma-ajuda. E acho que eu não fui o único a achar isso. Você sabia que sua assessoria de imprensa se desculpou pela sua nota, ontem mesmo?
Eu, aqui na minha luxuosa laje em Pinheiros, nesse verdadeiro templo dedicado à Razão, balanço a cabeça desanimado com essa triste obsessão humana, com essa insistência em atribuir à magia tudo que não está exatamente no manual do nosso cotidiano. Numerologia, astrologia, homeopatia, cristalografia, neurolinguistica, cabala, esqueci alguma dessas besteiras?
Você, que me lê, acredita em alguma dessas formas de metafísica para parvos, como disse o Lima Barreto, muito, muito antes de mim? Você acredita em Atlântida, em florais de Bach, na energia misteriosa das pirâmides? Você curte uma boa macumba, vai ao pai de santo, consulta a astróloga que sua amiga disse que é o máximo e lhe disse que sua vida vai enfrentar alguns desatinos e que uma viagem, uma doença na família e um garboso príncipe a aguardam, desde que você saiba evitar o maldito 15 e suas muitas subdivisões?
Você também opta por viver a vida de mágica em mágica, de credulidade em credulidade, pulando de uma a outra enquanto sua vida segue e alguém sério inventa uma nova vacina para algo que mataria você se você insistisse com o homeopata de plantão?
Eu gostaria que todos aproveitassem para fazer o contrário que o tal Chris propõe. Eu gostaria que todos lessem, ou espiassem ao menos, livros como “O mundo assolado pelos demônios”, do Carl Sagan, que pede aos homens e mulheres que parem de seguir essas tolices e se voltem para a beleza da ciência. Que todos leiam o lindo “Uma breve história de quase tudo”, do Bill Brysson, que nos chama para nos encantarmos com a mágica do que realmente existe e nos cerca, em vez de perdermos tempo com bobagens repetidas ao longo de milênios, e que não nos ajudaram a avançar um milímetro.
Vocês precisam pensar que, há apenas 100 anos, pouco mais, uma mulher em três morria no parto. Que a vida média era 37 anos, na Europa. Que quase todo mundo morria de choque, uma simples apendicite era mortal. Tuberculose também era. Lembram da varíola, poliomielite? Se morria de tudo, rezando pra qualquer coisa, numerando e astrologando ou não, nada fazia a menor diferença.
Isso somente mudou quando começamos a pensar pra valer e paramos de atribuir tudo os deuses ou aos duendes. Criamos remédios que funcionam independentemente do que eu pense sobre eles, criamos vacinas, inventamos a anestesia. Nada disso foi invenção de tarólogo, posso assegurar a vocês. Inventamos a vida moderna e nela vivemos, mas infelizmente a bruxaria veio junto. Precisamos nos livrar dela, pensando no que realmente acontece.
E o que realmente derrubou o vôo 477 foi o fato de que ele era um avião, que aviões infelizmente caem, sempre irão cair, uns poucos, enquanto a vasta maioria, numa celebração da inteligência humana, chegam aos seus destinos, depois de terem decolado, subido até 10 km de altura e -50 graus, viajado a mais de 800 km por hora, deixando-nos sãos e salvos, apenas mal-alimentados, para podermos trabalhar, conhecer lugares que jamais conheceríamos, encontrar pessoas amadas, viver a vida em sua plenitude.
Isso, contém riscos que numerologia nenhuma explica ou evita, porque, como qualquer tolice, ela fica infinitamente aquém da vida.
Raios caem sobre a gente, automóveis infelizmente colidem com caminhões, navios afundam, e todas as criações contém erros ou riscos, e assim é a vida, complexa demais para ser descrita ou controlada. Vivemos graças a essas maravilhosas coisas que criamos, e devemos aceitar a idéia de que, vez por vez, algo saia errado, ao mesmo tempo em que lutamos e usamos nossa inteligência para que cada vez menos coisas saiam errado.
Vamos chorar os passageiros do vôo que terminou tão tristemente, vamos aprender e melhorar os aviões, mais do que simplesmente duplicar as consoantes nos nomes deles.
Vamos, porque ir é a nossa natureza. Vamos em frente, mostrar do que somos capazes. Vamos, porque sim.
Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem “O Branco”, premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos “Simples” e o romance “O Nosso Juiz”, pela editora Record. Acaba de escrever o romance “Depois do Sexo”, que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances “Insônia” e “Antes que o Mundo Acabe”.