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Violação de Segurança: A “Mata Hari” do cyberespaço

1 de agosto de 2010 Sem comentários

Robin Sage, a "Mata Hari" da internet, criada por Thomas Ryan

O caso é fantástico e ao mesmo tempo previsível. Na verdade não tem nada de estranho, só comprova que homens machos do sexo masculino estão geneticamente programados para fazer tudo por um rabo de saia, inclusive abrir mão das faculdades mentais superiores que fingimos ter.

A diferença aqui é a proporção que a coisa tomou.

Tudo começou quando surgiu nas interwebs uma moça chamada Robin Sage, essa aí da foto. Ela dizia ter 25 anos e ser Analista Especialista em Ameaça Cibernética (Cyber Threat Analyst) do U.S. Navy’s Network Warfare Command. Chique, não?

Em menos de um mês ela conseguiu 300 contatos no Facebook, incluindo muita gente da comunidade de Inteligência. Fotos de biquini ajudaram.

Não parando no Facebook, Robin tinha perfis no Twitter, Linkedin e outros serviços. Seus contatos incluiam gente que trabalhava com o Estado Maior das Forças Armadas dos EUA, CIA, Corpo de Fuzileiros empresas como Lockheed Martin, Northrop e até o NRO, National Reconnaissance Office, agência secreta responsável pelos satélites espiões do Tio Sam.

Robin recebeu convites para revisar documentos da NASA, propostas para jantar, apresentar uma coferência em Miami… Um soldado no Afeganistão mandou uma foto com dados de geolocalização e pra piorar um terceirizado no NRO se confundiu e revelou pra ela a pergunta secreta pra recuperar senha na conta de email. Fora informações pessoais, fotos de família, endereços e tudo mais revelado pelos espertões babando pela gatinha.

Thomas Ryan

O problema: Robin Sage não existe.

Ela foi criada por Thomas Ryan, consultor de segurança. Foi um experimento para identificar a facilidade com que os membros da comunidade de segurança e inteligência poderiam ser enganados. Podemos dizer que o experimento foi MUITO bem-sucedido, e que ninguém verifica absolutamente nada.

O Comando de Network Warfare da Marinha dos EUA não tem um cargo de Cyber Threat Analyst, para ter 10 anos de experiência Robin deveria ter começado a trabalhar com segurança aos 15 anos, e bem, uma busca no Google traz como primeiro resultado para Robin Sage

Pois é. Robin Sage é um exercício de forças especiais que acontece 4 vezes ao ano, tem mais de 19 anos que é praticado e envolve um porrilhão de gente. Thomas Ryan também deixou outras pistas, como usar uma foto de uma mulher com aparência estrangeira (que ele pegou de um site erótico, buscando no Google por “Emo Chick”, sério!) e outros detalhes, como os perfis todos tendo um mês de idade.

Robin Sage desmascarada

Não é preciso dizer que o Pentágono está pegando fogo. A facilidade com que gente inteligente cai vítima de engenharia social é assustadora. Antigamente as espiãs sedutoras como Mata Hari ainda tinham algum trabalho, hoje em dia já dá para conseguirem informações sem sequer tirar a roupa (nem mesmo na webcam). Bolas, essa conseguiu informações e contatos sem sequer existir!

Portanto, fica a lição: Seja você Especialista de Segurança dos EUA, seja você um zé-mané qualquer, a regra é clara: Não dê mole. Um pouco de cinismo é essencial para sobreviver online.

Fonte: Washington Times

You can’t believe everything you read on the Internet

20 de junho de 2010 Sem comentários

Da mesma forma com que eu costumo brincar com minhas equipes: “O objetivo é o máximo”.

Me ligaram por volta do meio dia informando que havia uma referência a minha pessoa em um site político. Eu estranhei, pois não entendo, não trabalho, não conheço, e NÃO VOTO nas eleições.

A situação era a seguinte: Um perfil do Blogger, com minhas informações e minha foto (que estavam disponíveis no Orkut, sem tirar nenhuma vírgula), surgiu do nada, e com ele um blog recém criado. Este blog era um endereço falho do blog http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com, “amigosdopresientelula”, que nem esses que você digita www.goggle.com.br e ele te leva para um site errado.

No melhor estilo – teoria conspiratória – pegaram o nome de uma das grandes empresas para qual trabalho e relacionaram com um outro evento político. Sorte da Valve não ser brasileira, seria engraçado ver uma empresa de jogos envolvido com política, porém, pegaram no pé de uma grande empresa de comunicação.

Para encerrar, atribuíram a ação deste clone como legítima, dizendo que “a turma serrista está querendo obstruir as pessoas de lerem nosso blog”. Eu não sei se a turma serrista sou eu, ou se é a empresa de comunicação, uma vez que nem eu nem ela possuímos qualquer vínculo político. Se eu estivesse falando da revista Veja – assumidamente “de direita” – seria diferente.

Repito então as palavras de Jerry Lambert, ator que interpreta o VP “de qualquer coisa” da Sony, Kevin Butler: “You can’t believe everything you read on the Internet”.

PS: Liguei para o service desk do Google, enviei um documento com foto conforme ordena o procedimento, e o perfil clonado, assim como seu blog de endereço errado, foram apagados. Infelizmente essa abordagem não vence os aproximadamente 20 perfis falsos de minha pessoa que ainda existem no Orkut.

…e se fosse contra os EUA?

5 de janeiro de 2010 3 comentários

O filme Avatar, de James Cameron, está sendo “acusado” por diversos veículos dos EUA de ser “material político de esquerda” e se tratar de conteúdo “antiamericano”. Isso porque o filme retrata uma invasão de “colonos” a um planeta onde, seus nativos lutam para defendê-la, a grande diferença é que os bonzinhos do filme são os nativos.

Isso me leva a pensar sobre o jogo Call of Duty: Modern Warfare 2, recém lançado para todas as plataformas atuais, onde foi banido previamente na Rússia por conter uma missão chamada “No Russian”. Nesta missão, o jogador, um soldado do exército dos EUA fica encarregado de matar TODOS os presentes em um aeroporto na Rússia.

Como seria a receptividade do governo dos EUA, em especial aqueles com algum vínculo ao partido republicano, se uma empresa fora dos EUA como a francesa Ubisoft lançasse um jogo parecido, com uma missão chamada “No American” e tivesse como missão sair atirando em todo mundo que estivesse em Manhattan?

Fica a pergunta no ar.

Valdir Raupp quer censurar videogames, por Rodrigo Veleda

8 de dezembro de 2009 Sem comentários

Na íntegra:

O senador Valdir Raupp (PMDB-RO) acha-se no direito de achar que tipo de videogame tu podes jogar. Digo isso pois o dito cujo é o autor do PLS 170/2006, cuja ementa se lê:

Altera o art. 20 da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, para incluir, entre os crimes nele previstos, o ato de fabricar, importar, distribuir, manter em depósito ou comercializar jogos de videogames ofensivos aos costumes, às tradições dos povos, aos seus cultos, credos, religiões e símbolos.

E não apenas o PLS ser totalmente ridículo, o fato de tu manteres um GTA da vida no teu computador poderá te dar um voucher de hospedagem de um a três anos numa penitenciária. Como se não houvessem crimes de verdade acontecendo, digamos, no governo do Distrito Federal…

O relatório de Valter Pereira (PMDB-MS) aprovado, na Comissão de Educação é outra nulidade intelectual, citando apenas, quero dizer, mencionando a existência dum estudo da Universidade de Michigan (aliás, nem o nome do estudo nem os autores são citados) que “videogames  mudam as funções cerebrais e insensibilizam os jovens diante da vida.” Bom, no relatório até o satanismo é elevado a condição de vítima.

Só que ao contrário do que o srs. Raupp e Pereira, eu cito fontes dizendo que as maluquices citadas para apoiar o PLS, em especial o insano relatório de Pereira não passam de… maluquices. Primeiro eu cito um editorial, eu disse editorial, do British Medical Journal, cujo subtítulo não poderia ser mais claro:

Video gaming is safe for most players and can be useful in health care

Outro estudo, agora americano, tem o interessante título “The school shooting/violent video game link: causal relationship or moral panic?” e foi publicado no Journal of Investigative Psychology and Offender Profiling. O autor é Dr. Christopher J. Ferguson (seu site pessoal tem inúmeras informações sobre o uso de videogames como bode expiatório) do Departamento de Justiça Criminal e Ciências Aplicadas e Comportamentais da Universidade Internacional da Texas A&M em Laredo.

Continuando com as citações, vou para o “Internet Fantasy Violence: A Test of Aggression in an Online Game” do Dr. Dmitri Williams da Universidade do Sul da Califórnia e do Dr. Marko Skoric da Universidade Tecnológica Nayang e que foi publicado no Communication Monographs. Como diz o resumo do artigo:

Research on violent video games suggests that play leads to aggressive behavior. A longitudinal study of an online violent video game with a control group tested for changes in aggressive cognitions and behaviors. The findings did not support the assertion that a violent game will cause substantial increases in real-world aggression. (grifo meu)

Depois temos uma entrevista com o Dr. Henry Jenkins, na época diretor de estudos comparativos do MIT, que demole cada mito “videogame deixa criancinhas indefesas violentas”. E por fim, temos o livro Grand Theft Childhood: The Surprising Truth About Violent Video Games and What Parents Can Do dos drs. Lawrence Kutner e Cheryl Olson, ambos diretores e fundadores do Centro de Saúde Mental e Mídia do Hospital Geral de Massachusetts e professores de psiquiatria da Faculdade de Medicina de Harvard. Resumindo o livro, ele detona o seguinte argumento de Pereira no relatório pedido a aprovação do PLS de Raupp:

O Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Michigan divulgou, em 2005, que os videogames mudam as funções cerebrais e insensibilizam os jovens diante da vida. Os jogadores frequentes sofrem danos a longo prazo em suas funções cerebrais e em seu comportamento.

(…)

Nos últimos tempos, os videogames têm se popularizado junto à sociedade e, paralelamente, alguns crimes têm sido creditados à transposição da violência virtual para o mundo real.

Censura de jogos e democracia, por Túlio Vianna: Pornografia é cultura

8 de dezembro de 2009 3 comentários

Um ponto de maestria do sr. Túlio Vianna, praticamente um ensaio, na íntegra:

Uma matéria do jornal El País de hoje chamou-me a atenção para uma interessante discussão que está em curso no Congresso brasileiro: pornografia é cultura? A resposta a esta questão é fundamental para se definir se os beneficiários do vale-cultura poderão ou não utilizá-lo para assitirem a espetáculos ou adquirirem material de cunho pornográfico.

Claro que pornografia é cultura! Por que não seria?

Um texto literário deixaria de ser cultura por tratar de temas sexuais? Uma pintura ou escultura deixaria de ser cultura por retratar uma relação sexual? Uma música deixaria de ser cultura por falar de sexo?

Pornografia não é um meio de expressão de idéias, mas apenas mais um dos temas a serem expressados. Debater se pornografia é cultura é tão tolo quanto debater se vampirismo é cultura ou se ficção científica é cultura ou se funk é cultura. Trata-se de um debate sobre o conteúdo da cultura e não sobre sua forma de expressão.

Não cabe ao legislador, escolher os temas a serem abordados em manifestações culturais, pois ao fazê-lo estaria realizando uma valoração moral personalista de qual cultura é boa e qual cultura é ruim.

Discussão muito semelhante a esta, também em curso no congresso brasileiro, trata da proibição de determinados jogos eletrônicos que, nas palavras do legislador, são “ofensivos aos  costumes, às tradições dos povos, aos seus cultos,  credos, religiões e símbolos”.

Ofensas aos costumes ou a religião é sempre a ofensa aos costumes e à religião de alguém. No caso, obviamente, aos do legislador. Em um Estado Democrático de Direito, cujo valor essencial é a pluralidade, estas ofensas não podem ser simplesmente censuradas, pois o direito da minoria de se expressar livremente deve  ser sempre garantido.

O simples fato destas questões terem sido postas no parlamento brasileiro já demonstra como o nosso poder legislativo desconhece completamente um princípio básico do Direito: a rigorosa separação entre moral, religião e Direito.

Em um Estado Democrático de Direito, laico e amoral na sua essência, o legislador deve respeitar a pluralidade de concepções morais existentes, garantindo o direito de pudicos e libertinos, de religiosos e de ateus, independentemente de suas concepções pessoais.

Democracia não se confunde com ditadura da maioria.

Na ditadura da maioria, a maioria pode impor valores religiosos e morais à minoria. Cristãos pudicos poderiam, por exemplo, proibir jogos que satirizassem Cristo ou trouxessem cenas que atentassem contra a virtude da castidade. Na democracia, no entanto, os direitos das minorias são resguardados, desde que não lesem direitos fundamentais da maioria. O simples fato de assistir a um filme pornográfico ou jogar um videogame no qual Cristo seja satirizado não lesa nenhum direito fundamental da maioria cristã e/ou pudica.

Qualquer restrição a este tipo de produção cultural afasta-se do ideal democrático e aproxima-se de uma inadmissível ditadura da maioria. Não cabe ao legislador decidir que tipo de jogo eletrônico é bom ou ruim e muito menos se a cultura pornográfica deve ou não ser usufruída pelos brasileiros.

No Estado Democrático de Direito somos livres para fazer nossas escolhas culturais, sem que estas estejam submetidas à avaliação moral e religiosa de um legislador paternalista que seleciona previamente a “boa cultura” a qual devemos ter acesso.

Se o legislador brasileiro considera o enredo de algum jogo eletrônico imoral e pecaminoso, basta não jogá-lo e não permitir que seus filhos o joguem. Se o legislador brasileiro considera que a pornografia não deve ser acessada por “cidadãos-de-bens” (o trocadilho é proposital), pois há uma ala no inferno reservada aos libertinos, basta afastar-se dela. O que não pode é o legislador, em hipótese alguma, impor seus critérios morais e religiosos aos cidadãos de um Estado Democrático de Direito.

Se se vai criar um vale-cultura, que seja ele um vale-qualquer-cultura e não um vale-cultura-que-o-legislador-escolheu-pra-você.

Blog do Túlio Vianna