O vírus que derrubou um avião
A imprensa está louca, o mundo está estúpido. Pelo menos, os funcionários da companhia aérea Spanair estão felizes, ao menos todos aqueles que não fazem parte da equipe de service desk.
Repentinamente, resolveram achar um culpado para justificar a causa da queda de um avião que aconteceu em 2008, vôo JK5022 matando 154 pessoas: Um vírus. Pior, não se tratava de fato de um vírus, mas sim de um cavalo de tróia. Vírus praticamente não existem hoje em dia, aquele que infectava arquivos legítimos e tal… aah, século passado, saudade de você.
Um cavalo de tróia, ou trojan, nada mais é do que um malware instalado inadvertidamente em um computador com sistema operacional popular a fim de executar alguma tarefa programada. Desviar ou alterar sites, enviar spam, capturar e-mails, se replicar em listas de contatos dos usuários, etc. Nenhuma dessas operações costumam atacar sistemas comerciais específicos.
No caso do acidente de 2008, descobriram que um computador onde o operador lê os alertas emitidos pela aeronave, estava com um trojan instalado, e segundo diversas matérias, como esta, o mal funcionamento do computador impediu que este alerta fosse exibido para o operador.
Me desculpe, mas utilizar um computador com “mal funcionamento” para monitorar ambientes críticos é burrice!
Um vírus, worm, trojan, spyware, grayware, ou qualquer outra coisa do gênero, NÃO manipula sistemas. Ainda mais sistemas com fins comerciais muito específicos. Este trojan NÃO foi programado para suprimir os alertas desse sistema. Um avião NÃO deveria ser autorizado a decolar sem antes a verificação do sistema de monitoramento, e se ele não estivesse funcionando ou tivesse alguma dúvida, que utilizasse outro terminal!
Operador trabalhando:
“Vou acessar o histórico de falhas do avião”
“Putz! Minha máquina está com vírus, vou abrir um chamado mas o suporte vai demorar, manda decolar, acho que está tudo certo com ele”
“PLOFT!”
“Eh… parece que não.”
Isso está com cara de irresponsabilidade, incompetência, desobediência do procedimento ou incapacidade do operador responsável por esta operação, e que achou, literalmente, um cavalo (de tróia) para botar a culpa.
Vamos a causa real do acidente: O avião explodiu porque contornaram um alerta de superaquecimento na aeronave com um fusível e… gelo!
Transcrição do diálogo contido na caixa-preta:
Mecânico: “Pode me trazer uma bolsa de gelo… ou de amendoins.”
Carregador: “Para vocês?”
Mecânico: “Não, homem. É uma brincadeira, é para esfriar a sonda. Ela está falhando.”
Comandante: “Tenho que anotar tudo isso porque vamos sair atrasado.”(Alguns minutos depois)
Mecânico: “Então vamos deixar assim, com o aquecedor inoperante. OK?”
Comandante: “E tirar o disjuntor, não?”
Mecânico: “É porque estava esquentando.. o sistema fica inoperante.”
Comandante: “Você tira o disjuntor ou algo mais?”
Mecânico: “Não, o disjuntor, mas está inoperante. Vou despachar de acordo com o MEL (a lista de equipamentos mínimos com que um avião pode voar).”
Terceiro ocupante da cabine: “O que era? Trocaram o relé (interruptor acionado eletricamente)?”
Co-piloto: “Não, eles o tiraram.”
Terceiro ocupante da cabine: “Como vão tirar o relé! Colocaram gelo no final?”
Terceiro ocupante da cabine: “A temperatura baixou muito?”
Co-piloto: “Inferno, puxa!”
Terceiro ocupante da cabine: “Para esfriar antes que o sensor? Mas se o problema era o sensor, voltará. É um remendo que fizeram ali.”
Co-piloto: “Pode-se fazer assim.”
Terceiro ocupante da cabine: “Mas colocar gelo em um sensor para que esteja dentro do limite…”
Co-piloto: “Não, não, isso era para ser resfriado muito antes.”Em um momento da conversa, o co-piloto está reclamando porque a namorada dele vai ter que esperar mais de uma hora e meia no aeroporto porque o avião saiu atrasado e diz que vai pedir não voar com o comandante, porque só na semana tiveram três incidentes. O último som que ouviu foi o grito do co-piloto.
Co-piloto: “Bate na madeira, tio. Nós vamos pedir para não voar junto com você.”
Comandante: “Não houve tantos incidentes assim.”
Co-piloto: “Cada vez que voei com você tivemos algum problema.”
Comandante: “Pilota você? (Cede controle a seu parceiro)”
Terceiro ocupante da cabine: “Vamos que vamos.”(Ruídos)
Co-piloto: “Falha no motor?”
(A voz de alarme toca quatro vezes)
Comandante: “Voa avião.”
Comandante: “Voa.”(Se escuta o primeiro golpe)
Comandante: “Merda!”
(Se escuta o segundo golpe)
(O co-piloto grita)
O resultado foi esse:
Segundo o iOnline, o julgamento dos culpados por negligência aconteceu em maio, então me pergunto: De onde saiu essa idéia de que um vírus ajudou a causar o acidente? Alguns jornalistas me envergonham. G1 #fail.





Ivan Carlos é consultor especializado em tecnologia e segurança da informação, gestão de riscos e continuidade de negócios. Especialista em engenharia social e beta tester pela Microsoft Connect entre outros projetos, também escreve para alguns sites de tecnologia e desenvolve estudos diversos de bioquímica, crenças, neurociências e comportamento.
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