publicado no Jornal da Tarde.

O professor de Biologia Silvestre Viana, de 26 anos, sempre se sentiu diferente. Tentava seguir os costumes. Mas algo não se encaixava. Quando descobriu o que era, relutou até assumir sua condição. Era ateu. Perdeu o emprego, amigos. Até brigou com a família. “Por não acreditar em Deus, pararam de confiar em mim.”

Viana é parte de uma minoria que sofria sozinho o preconceito. Sofria. Em dezembro, foi criada a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) para dar suporte aos que não creem em Deus, divulgar valores seculares, garantir o Estado laico e incentivar os descrentes a “sair do armário”.

“Eles precisam de alguém que apoie, dê a cara, lute contra o preconceito”, diz Daniel Sottomaior, presidente da Atea. Tarefa árdua: os ateus são o grupo mais rejeitado pelos brasileiros (veja abaixo). Mesmo assim, a associação, criada a partir de fóruns na internet, tem 371 sócios e arrecadou R$ 7.000, marcando a chegada do “novo ateísmo” ao país.

O movimento contesta as crenças religiosas e prega ativamente a ciência como única explicação para tudo. Surgiu como reação ao recrudescimento do fundamentalismo religioso, intensificado após os atentados de 11 de setembro de 2001, nos EUA. Para a historiadora da Unicamp Eliane Moura, os religiosos passaram a incomodar ao contestar a laicidade do Estado e o avanço da ciência:

“O que não era contestado passou a ser questionado e conquistas importantes, como o domínio das células-tronco, foram barradas.”

Na ação mais polêmica até agora, ônibus de Londres e Barcelona circularam com frases como “Provavelmente, Deus não existe”. A campanha publicitária, intensamente criticada por religiosos, foi proibida na Itália. No Brasil, a Atea teve dificuldade em sua primeira tentativa, pois uma norma do Metrô de São Paulo veta propagandas “de cunho religioso”.

O grupo passou para os ônibus, mas o pedido foi recusado por uma empresa que quis “evitar polêmicas”. Resistência compreensível num país onde 93% da população diz ter religião, segundo o IBGE. Mesmo entre os 7% restantes, há muitos acreditam em Deus.

Além de incluir os ateus no censo – para saber quantos existem no país - a Atea quer instituir o Dia do Orgulho Ateu. A preferência é por 12 de fevereiro, quando nasceu Charles Darwin, cientista que consideram quase um deus. 

Este ano comemoram-se os 200 anos do nascimento do britânico que contestou a teoria criacionista (Deus criou o mundo e tudo que nele vive) com a evolucionista – o homem é resultado de milhões de anos de seleção de espécies.

“Todos têm direito de se organizar, mas acho paradoxal eles trabalharem da maneira que condenam nos outros”, diz Cleverson de Almeida, diretor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que ensina criacionismo e evolucionismo nas aulas. “Essa campanha me parece anacrônica, porque hoje se tem liberdade total”, diz o padre José Oscar Beozzo, teólogo e historiador. “Mas o mesmo direito que temos de professar a fé eles têm de não professar.” Amém.

Rejeitados

O grupo social mais intolerado do Brasil é o ateu. A conclusão é de uma pesquisa feita em 2008 pelas fundações Perseu Abramo e Rosa Luxemburgo para medir o preconceito contra gays.

Perguntados sobre o que sentiam quando encontravam um ateu, 17% dos 2.014 entrevistados disseram repulsa ou ódio e 25%, antipatia.

É o maior índice de aversão dos 28 grupos étnicos e sociais arrolados, empate técnico com usuários de drogas. Os garotos de programa e transexuais vêm em 2º.

“Fui despedido por ser ateu” - Silvestre Viana, 26 anos, professor de biologia e ateu.

Como você se tornou ateu?

Silvestre Viana: Fui criado como católico, mas sempre questionei a Igreja. Fui para outras religiões. Espírita, evangélica, até que comecei a estudar biologia. Não consegui conciliar e escolhi a ciência. Tinha 19 anos.

Como foi?

SV: Não tinha como assumir imediatamente. As pessoas te olham de jeito diferente. Você sente medo da rejeição da família. Aqui na Bahia, para se expressar como ateu, tem que ter raça, é lenha. Em São Paulo, tem uma galera de mente mais aberta. Por isso fiquei no armário. Preferi amadurecer a ideia.

E quando contou?

SV: Há cinco anos para os amigos e para minha mulher. E há quatro pros meus pais. Discuti muito. Meus amigos Testemunhas de Jeová não falam mais comigo. Nas reuniões de família eram 20 pessoas dizendo que eu estava errado. 

E no trabalho?

SV: Eu estava num debate na escola que dava aula, no ensino médio, no interior da Bahia. Defendia o evolucionismo e um seminarista, o criacionismo. Eu assumi. O debate acabou e o ano letivo terminou. A diretora me mandou embora. Falou: “onde meus alunos vão chegar com um professor ateu?”